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Lavando a trouxa de roupa da escola

Segunda-feira, 9 de janeiro, manhã escura e gelada de inverno, retorno às aulas das crianças. Este é o cenário da minha história de hoje...

Cheguei feliz e sorridente na escolinha da Jú. Todas as mães no corredor, de pé em grupinhos, conversando em gargalhadas sobre as férias. E eu alí, com um sorrisão simpático no rosto, mas absolutamente calada. Elas falavam um alemão muito rápido e eu prestando uma atenção fenomenal pra tentar "pescar" alguma coisa, fazendo aquela cara de "entendi tudo", ou seja, a famosa "cara de chuchu".  

Eis que vejo lá no fundo do corredor uma das professoras arrastando uma trouxa de roupas enorme vindo em nossa direção. Pensei rápido "Coitada" (pensei rápido porque pensei em português. Se eu tivesse pensado em alemão, demoraria bem mais!)... Todo aquele sorrisão simpático que tava no meu rosto imediatamente se desconfigurou quando percebi que a trouxa era pra mim! Para minimizar os custos da escola, as mães se revezavam para LAVAR A ROUPA SUJA!!!!!!!!!!! E eu era a mãe da vez!!!

Estou passada até agora. Isso pra mim não foi só um choque cultural não. Foi um curto-circuito! Vim trazendo aquele trouxão pesado pela rua à fora, sentindo que as pessoas do bairro me olhavam. "Lá vai a mãe da vez!" A trouxa tinha um emblema gigante da escola estampado. Parecia até de propósito! Nem dava pra disfarçar.

Enquanto estou aqui escrevendo, ela (a trouxa) está alí no canto olhando pra mim. Vou ter que encarar, não vai ter jeito. São milhares de toalhas de mão, panos de prato, toalhas de mesa, panos de limpeza, paninhos sujos de tinta com marquinhas de mãos, provavelmente das aulinhas de arte. Mas em especial, um paninho me chamou mais a atenção. Bem esquisitinho, nem sei pra que serve. É meio durinho, tipo uma lixa... Como se lava isso meu deus do céu!!!

Liguei imediatamente pro Reginaldo, na esperança dele me dar uma luz. Nem terminei de contar e ele teve uma crise incontrolável de riso no telefone. É porque não foi com ele... Fiquei até com raiva! Depois de tanto rir às minhas custas, ele perguntou se além de lavar eu também tinha que passar!!! Nessa hora, eu desliguei o telefone na cara dele, porque lembrei da noite anterior quando tive que tomar uma garrafa inteira de vinho ouvindo Wando, de onde tirei forças e coragem pra passar a pilha inteira de roupas da casa.

Olhei para a trouxa de novo... Morando aqui na Alemanha, aprendi a encarar as coisas pelo lado bom. Então fiz as contas e percebi que a escola tem tantas mães, que iria demorar pra tal trouxa voltar pra mim novamente. Com isso me animei e comecei a encarar mais esse desafio. Cuidadosamente fui separando um à um, paninho por paninho. Lavei na máquina os que eu julgava mais resistentes, mas os tais paninhos-lixa me pareceram tão sensíveis! Então decidi lavá-los à mão mesmo. Pus de molho, esfreguei suavemente. Torci com carinho e sequei todos na horizontal para não deformar! Olhando-os assim eles pareciam tão importantes!!!! Enigmaticamente, fui criando um forte vínculo emocional com os paninhos-lixa. Passei, engomei, até borrifei cheiro-bom! Caprichei mesmo! Enquanto estavam no varal, toda vez que Júlia passava ela dizia: "Olha mamãe, que coincidência, vc tem uns paninhos iguaizinhos aos lá da minha escolinha!!!"... Ai meu pai, eu mereço... Sem contar que Reginaldo e Pedro ficaram tirando onda com minha cara, me chamando de 'Toalheiro Brasil'. Saco viu!

Hoje pela manhã, tratei logo de levar a trouxa de volta pra escola. Estava doida pra me livrar disso. Organizei o monte lavado e passado, que na altura do campeonato já nem tinha mais cara de "trouxa". Coloquei os paninhos-lixa bem em cima de tudo. Queria impressionar a professora! Hoje fui de carro, porque ontem eu tinha ido de bicicleta e paguei o maior mico trazendo a trouxa "sentada" no meu banco enquanto eu mesma vinha empurrando a bike à pé!!!

A professora me recebeu sorridente. Estava super gentil, me tratando como melhor amiga de infância. Mas também pudera né, depois daquele trabalhão todo! Pegou as roupas da minha mão, elogiou muito a minha tarefa e agradeceu. Ao ver os paninhos-lixa, ela passou a mão neles num movimento muito rápido e jogou tudo na lixeira! Perplexa, fiquei com os olhos tremendo cheios d'água, não querendo acreditar naquela cena. "Como assim? Meus paninhos-lixaaaaaaaa!!!!!"

"Frau Cassiano, disse a professora, me desculpe. Não sei como isso foi parar na sua trouxa. Esses TRAPOS são descartáveis e servem para absorver a água da pia. Tinham que ter sido jogados fora antes!!!"

Ainda fiquei ali parada um tempão, em silêncio, frustrada, olhando meus paninhos-lixa lá no fundo da lixeira...

 

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Ana Cassiano

Morei na Alemanha por 8 anos. Já visitei vários países de continentes diferentes. Sou Guia de Turismo em São Paulo, Escritora de Viagens e Colaboradora de Sites de Turismo.