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Não é fácil ser mãe do Pedro

Primeiro dia de aula do Pedro na 5ª Série! 

Será tudo novo pra ele e pra mim também, pois ele passou da Grundschule para o Gymnasium, mudança importante para os alunos aqui na Alemanha. 

Esquema diferente, escola nova, professores novos, amigos novos, tudo novidade! Por isso, os pais foram chamados logo no primeiro dia para tirar as dúvidas. 

Por causa de uma reunião na BASF, Reginaldo não pôde ir e eu tive que descascar esse abacaxi sozinha. Vocês podem imaginar o que é encarar uma reunião de 5ª série EM ALEMÃO? Só de pensar minha barriga dói. Dá vontade de sair correndo, fugir sem olhar pra trás. Mas sou a mãe né, então tive que ir, faz parte.

No caminho, fui pensando no que eu poderia fazer pra tornar as coisas um pouco mais fáceis pra mim, por causa do idioma:

Plano nº 1: Sentar num cantinho discreto, pra não ser notada. 

Plano nº 2: Não puxar assunto com ninguém e não ficar na mira pra ninguém puxar assunto comigo.

Plano nº 3: (e o mais difícil): Concentrar-se profundamente nas palavras do diretor para quem sabe, e com muita ajuda de Deus, conseguir entender pelo menos a metade do que ele iria falar.

Meu estômago doía tanto de nervosismo, que parecia o MEU primeiro dia de aula. Por causa dessa bendita reunião eu nem tinha dormido direito. 

Mas e o Pedro? É claro que o tranquilão tava numa boa né! Acordou legalzão, tranquiiiiiiiiiiilo... Se arrumou beeeeeem devagar, fez o lanche, pegou a mochila e preferiu ir de bicicleta. Disse que a gente se encontrava na porta da escola. 

Aí eu falei "Pedro, me espere bem na frente do portão de entrada! Não me deixa sozinha lá, porque não conheço nada nem ninguém. Preciso de você comigo!!!" (Não tô falando que tava parecendo que o primeiro dia de aula era o meu?)

Cheguei na escola e claro que o pastel do Pedro não estava no local marcado. Esperei um tempão lá fora e nada. Como a reunião já ia começar, tive que entrar, porque atraso pra alemão é crime! E lá fui eu sem o Pedro... 

O auditório já estava cheio e só tinha lugar na frente do diretor. Sentei. (O Plano nº 1 foi pro brejo). 

Ele começou o discurso bombardiando aquela língua alemã como se fosse uma guerra! Cada criança estava sentada ao lado de seus pais eu ali sozinha. "Cadê o Pedro, meu Deus, hoje eu mato esse menino!"pensava. 

Com a preocupação de encontrar a criatura, tive que abortar o Plano nº 3, porque a última coisa que eu prestava atenção naquele momento era no diretor. 

E para completar, a ausência do Pedro começou incomodar alguns pais, que vieram logo falar comigo, mandando pro beleléu também o Plano nº 2!

Um a um os alunos começaram a ser chamados no palco. Os professores estavam lá em cima para apertar as mãos das crianças e, no final, ia rolar uma foto de todo mundo junto. Tava até parecendo formatura de universidade! 

E eu alí, sem filho, querendo matar o primeiro que passasse na minha frente. Aí chega a pior hora: 

"Pedro Cassiano", chamou o diretor............ (Silêncio no auditório).

"Pedro Cassiano", enfatizou o homem. 

Comecei à suar. Eu ainda tinha a esperança do Pedro estar alí em alguma parte e levantar quando o diretor chamasse, mas nada do menino.

"PEDRO   C-A-S-S-I-A-N-O!    Pêd rrrrrrrrrrrrrrôôô Caziáááááno!!!"  Alemão quando enfatiza o "r" dá até medo. Fica uma coisa muito "garganta" sabe, forte, autoritária, cortante feito uma navalha. 

Eu que já nem sentia mais minhas pernas, comecei a tremer. Fiquei branca, com a boca seca, morrendo de vergonha e de raiva ao mesmo tempo, mas tive que levantar e ir até o palco para dizer (no microfone) porque o meu filho não estava alí!!!!!! 

Foi o maior bafafá né! Lógico! Uma adrenalina danada ter que explicar tudo em alemão, passando a maior vergonha, num auditório cheio de pais com os olhos pra mim estatelados. 

"Eu mato esse Pedro, hoje eu mato!" era o que minha cabeça pensava sem parar.

E eu que achei que ia ser fácil, que era só sentar, escutar tudo e ir embora no anonimato, de repente passei a ser o centro das atenções: a mãe cujo filho não compareceu ao tão importante Primeiro Dia do Gymnasium!!!!! 

Começaram-se as buscas pra tentar achar a criatura Pedro. A peça rara estava num outro portão de entrada, ainda me esperando, mais de uma hora DEPOIS do horário combinado! É ou não é pra matar? Onde o bonito chegou, o bonito ficou. E ficou... e ficou... e foi ficando enquanto eu passava por todo aquele constrangimento. Não estava nem aflito, nem com medo, muito menos preocupado. Se dependesse dele, ele estaria lá esperando até agora!

Isso foi na semana passada, mas até hoje ainda não voltei a falar com ele direito. Estou de mal... Quando ele me pergunta se minha raiva já passou, eu rosno! e ele sai correndo...

 

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Ana Cassiano

Morei na Alemanha por 8 anos. Já visitei vários países de continentes diferentes. Sou Guia de Turismo em São Paulo, Escritora de Viagens e Colaboradora de Sites de Turismo.