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Ler filosofia grega na Grécia faz mais sentido

Essa história é real e se passou nas nossas férias de verão na Grécia. 

Vida de dona de casa na Alemanha é muito difícil. Lá não há empregadas como no Brasil. É a gente que faz tudo sozinha, e por isso eu estava ansiosa esperando por essas férias! 

Mas olha, vou te contar uma coisa, dona-de-casa é fogo mesmo! Lido com panos e baldes o ano inteiro e quando surge a chance de ir pra uma ilha grega escolho logo RHODOS?!! Mas valeu super a pena, vou contar porque.

O Nerd do meu marido levou para ler na Grécia um livro sobre filosofia grega (mereço?) Quem o conhece sabe que é a cara dele. O livro era tão grosso que me dava preguiça só de olhar. Vocês não vão acreditar mas ele tinha lido esse livro uma vez e levou pra ler DE NOVO! Ler livro de filosofia grega na Grécia faz mais sentido, vai ver que é isso! Caso contrário, o que levaria um ser humano normal ler um livro destes mais de uma vez?

Se fosse só isso, tava bom. O problema é que ele ficava citando trechos do livro pra mim toda hora. Assim, do nada:

"Ana, Parmênedes dizia que tudo flui..."

(Hã?)

"É Ana, Parmênedes defendia a idéia de que tudo está em movimento e nada dura para sempre..." 

(Silêncio)

Então eu olhava pro infinito, balançava a cabeça e fazia cara de "poxa vida que incrível". Mas no fundo eu estava mesmo era preocupada. Será que o Gi estava bem? Essas coisas profundas mexem muito com a cabeça da pessoa viu!

Mas voltando ao assunto, feche os olhos e imagine uma cidade grega... 

Se você pensou em casinhas brancas, todas aglomeradinhas num morro, cercadas de um mar turquesa por todos os lados, você acertou! A Grécia é isso mesmo. Linda, divina, estonteante! 

Ruas estreitas, lojas de tapetes, jóias, cerâmica e muitas ταβέρναs (tabernas) com mesinhas simpáticas espalhadas em um pátio coberto por trepadeiras fazendo sombra, cheios de varandas ventiladas e mirantes lindos.

Escondidas misteriosamente no miolo das cidades, estão as igrejas bizantinas. Luxuosas e ricas, decoradas com veludos, tapetes, afrescos e muitos (muitos) detalhes em dourado. Praticamente uma tenda árabe! 

A religião forte por lá é a católica ortodoxa, tradicionalzona e muito rigorosa. Mesmo com todo calor, os velhos andam pelas ruas de preto da cabeça aos pés. São como pontos pretos no meio daquele labirinto de paredes brancas. 

Na porta de cada igrejinha bizantina sempre tem uma senhorinha ortodoxa "de vigília", mandando os turistas se cobrirem antes de entrar. É sinal de respeito. Aí a gente coloca a canga na cabeça, tipo uma burca, e os homens fazem o mesmo com uma toalha.

É impossível não entrar no clima. A gente mergulha no passado da humanidade o tempo todo. Por causa da mitologia grega, a gente percebe a influência dos deuses em cada canto. Nas ruínas milenares, nas obras medievais e nas paisagens de tirar o fôlego. 

As casinhas brancas com telhados em forma de cúpula pintados de azul são tão harmonicamente distribuídas, que até parecem de brinquedo. As ruas são pavimentadas com minúsculas pedras, milimetricamente encaixadas à mão, uma à uma, de cores diferentes, formando desenhos no chão, mosaicos. Um trabalho maravilhoso!

Subimos numa Acrópole! (templo de adoração aos deuses da antiguidade). As enormes colunas gregas, de mármore branco estavam lá, exatamente como nos meus sonhos. 

A magia do lugar impressiona. Fica bem no alto, num silêncio só! Nos ouvidos, o barulho do vento forte e perante os olhos, um mar turquesa sem fim. Coisa divina mesmo! Ficamos lá por um tempo, é assim que todos fazem.

Para descer da acrópole tem uma imensa escadaria que leva de volta à cidade. A gente pode escolher descer à pé ou de burro. Sim, na Grécia anda-se muito de burro, pela facilidade desse animal se mover em terrenos pedregosos e acidentados. O burro é praticamente um taxi por aqui! Comecei a pensar em como desceríamos, então foi quando o Gi filosofou de novo:

"Ana, o tudo vai e vem. Mas não se esqueça que sempre há algo eterno imutável que não flui..."

Depois dessa, decidi que os meninos desceriam de burro mesmo. Júlia e Pedro não perderiam essa chance! 

Eu e o Gi descemos pela escadaria, apreciando o trabalho das mulheres que fazem toalhas de renda manualmente e as expõem ali mesmo sobre as pedras do caminho. Fui reclamar que a descida estava difícil. (Pra quê!) Fiz minha boa ação do século, porque o Gi veio filosofando e eu ouvindo...

“Muitas coisas não ousamos empreender por parecerem difíceis; entretanto, são difíceis porque não ousamos empreendê-las...”

Eu perguntei: "-E essa frase, de quem é?" Ele respondeu: "-É de Sêneca!"

Hummmm (Silêncio de novo)

O litoral da Ilha de Rhodos é lindo de morrer, masssss, o interior é uma secura só. Rochosa, sem vegetação, quase inabitado e incultivável. É praticamente só pedra mesmo. O que se vê em alguns pontos da ilha são plantações de oliveiras (azeitona) - por isso o famoso azeite extra virgem grego! - e criações de cabras, bodes e carneiros.

O que movimenta a Grécia mesmo é o turismo. Os resorts são verdadeiros oásis no meio daquela secura toda. O interior é montanhoso e por isso, as estradas são estreitas, perigosas e com muitas curvas em zig zag. Muitas nem são asfaltadas! 

Mas quem vem à uma ilha grega pra ficar prestando atenção nesses detalhes não é mesmo? A gente fica até hipnotizado por aquele mar, tentando acreditar nos vários tons de azul que nenhuma máquina fotográfica consegue registrar com fidelidade. Só vendo mesmo! 

E nessa hora, Reginaldo falou:

"Ana, sabe aquela frase - só acredito vendo? Parmênedes não acreditava nem no que via, porque os sentidos fornecem uma impressão enganosa da realidade. E isso não está em conformidade com a razão..."

Será que ele não vai sair nunca do capítulo do Parmênedes??? pensei

Alugamos um carro para percorrer a ilha. De ponta à ponta levam 2 horas. Nos divertimos muito com as placas de trânsito. Eram todas em grego (lógico) e sem tradução. Não dava pra entender nada! Como é que pode né, eles permitirem que o turista dirija? Eu tirei muitas fotos, adorei. Acho que tenho mais fotos de placas que de paisagem! aloka

Aliás, deixa eu te contar sobre o idioma grego. Sabe aquela expressão "esse cara tá falando grego comigo" é a mais pura verdade, porque a gente não entende nadica de nada mesmo. As coisas escritas são um monte de símbolos juntos, até bonitos de se ver, mas impossível de entender. 

O alfabeto grego lembra aquelas fórmulas mirabolantes de matemática que a gente aprendeu na escola, olha só: Alpha, Beta, Gamma, Delta, Zeta, Eta, Theta, Kappa, Lambda, Omikron, Pi, Rho, Sigma, Tau, Chi, Psi, Omega...

Não, péra! E os nomes das pessoas? Tenta falar rápido sem enrolar a língua: Asclépio, Herácles, Hefaísto, Hermógenes, Pítia (nesse a gente até cospe!), Hígia, Panacéia, Xenófanes, Arístipo, Empédocles, Anaximando, Antístenes, Diógines, Anaximedes (que deve ser irmão do Anaximandro), Anaxágoras (que deve ser primo do Anaximedes e do Anaximandro) e Zenão. Ahhh não gente, Zenão é "F...". O que passou na cabeça da mãe desse Zenão gente na hora de registrar esse menino, coitado!

Bom dia em grego é Kaliméra. Boa tarde é Kalispéra. Como vai é Tikánetetikánis (praticamente impossível de pronunciar); Por favor é Parakaló, Obrigado é Efcharistó pára polí... e por aí vai. 

Numa terra onde carro é Aftokínito, ônibus é Leoforío e restaurante é Estiatório, a gente realmente passa aperto. Sugiro fazer mímica. Mesmo os gestos mais comuns são bem diferentes dos nossos. NÃO em grego é balançando a cabeça pra trás. SIM tem que mexer uma vez só a cabeça pra frente. Deu pra sentir o drama? Eu comentava com o Gi de onde esse povo tinha tirado essas coisas. Aí ele respondeu que

"nada pode surgir do nada. Tudo que existe sempre existiu porque nada que existe pode ser transformado em tudo..."

Comecei a me irritar com essa filosofada toda e xinguei:

"Olha aqui Reginaldo, pára de conversar comigo desse jeito. Não quero mais saber dessas coisas do Parmênedes tá?"

"Ô Ana, o mais inteligente é aquele que sabe que não sabe..."

Meu, o homem não tava bem. Só pode ter sido a comida.

A comida da Grécia é a dita mediterrânea (acho chique esse nome!) Mas pobre é foda mesmo né, porque fui comer aquelas coisas e me empolei toda! Passei 3 dias parecendo uma bucha vegetal de tão áspera. Não tô acostumada ué! Comi muito frutos do mar esquisito naquele lugar. Até cavalo-marinho eu comi! 

Os peixes dessa região tem cheiro e sabor muito fortes. Qualquer prato fica com um sabor bem característico. Também entrei no queijo Feta e caí de cara na tal Moussaká, que é tipo uma lasanha de beringela. E os Pytogyros então? O povo ama esses churrasquinhos de cordeiro. 

E tudo isso regado ao bom vinho grego e OUZO, que é a cachaça deles, à base de anis. Eles preparam umas bebidas magníficas com Ouzo. Pensando nisso tudo, eu até tive sorte de só me empolar, porque com tudo junto, eu poderia até ter morrido! E foi só falar em morte que Reginaldo disse:

"Ana, Epicúrio disse que enquanto somos, a morte não existe e quando ela passa à existir, nós deixamos de ser..."

Rhodos é uma maravilha de ilha banhada pelo Mar Mediterrâneo de um lado e pelo Mar Egeu do outro. Fomos conhecer o extremo sul da ilha onde os mares se encontram. Durante o verão, a maré baixa e forma um banco de areia no meio, separando os dois mares. Lindo demais! 

Atravessamos esse banco de areia de carro, onde no inverno é fundo de mar, pode imaginar uma coisa dessas? Só há 3 lugares no planeta onde um banco de areia aparece separando 2 mares e Rhodos é um deles! Magnífico!

O Mar Mediterrâneo é mais agitado e tem muitas ondas. O Egeu é bem mais calminho, parece um lago. Fica cheio de surfistas praticando windsurf. Na ponta da ilha tem um farol e depois dele a terra acaba de repente, num grande penhasco, altíssimo, tipo um paredão que morre no mar. Essa face da ilha é famosa por causa dessas falésias. 

Esse lugar é incrível porque lá de cima a gente vê tudo por inteiro, 360 graus. Dá uma coisa no peito, uma emoção, uma vontade de gritar. Então eu gritei! Abri bem os braços e gritei: "-Como pode existir um lugar tão lindo assim nesse mundoooooooo!!!" E tive como resposta:

"Ana, nosso mundo é apenas um dos muitos mundos que surgem de alguma coisa em algum lugar, e se dissolve nessa alguma coisa. Isso é o infinito Ana..."

Sem comentários.

Nosso resort tinha de tudo. Ficava bem na praia e era cheio de coisas pra fazer. De dia os monitores envolviam os hóspedes em várias atividades diferentes e toda noite tinha um show diferente pra assistir. De madrugada a pista de dança ainda fervia. 

Mas e as crianças? Vou responder com outra pergunta: Qual é a coisa mais sagrada que existe nesses hotéis de férias??? MONITORES INFANTISSSSSSS!!! A gente praticamente só via Pedro e Júlia no café da manhã e no jantar, e mesmo assim quase dormindo com a cara no prato de tão cansados. Sendo assim, nossas crianças e todas as outras do hotel iam dormir cedo! ISSO É QUE SÃO FÉRIAS PARA OS PAIS MINHA GENTE!

O verão na Grécia é quente e seco, quase nunca chove. É perfeito. Não vi uma nuvenzinha sequer, só céu aberto, azul demais e à noite bastante estrelado. Depois do jantar, a gente costumava voltar para a praia só pra deitar nas espreguiçadeiras e ficar olhando o céu.

"Ana, você sabia que até nós somos poeira estelar?..."

"Nossa Gi, que lindo isso!" falei

Dessa vez eu entrei na onda. Tava o maior clima, a gente alí naquela praia à noite, depois de tanto Ouzo, sabe como é!

Pegamos um calor de 43 graus nessa temporada. Foi uma delícia! A única coisa difícil de acostumar foi as praias de cascalho. As praias gregas não são de areia. E isso incomoda um pouco por causa dos pés. Tem que usar uns sapatos especiais pra andar na praia e eles eram ridículos! A gente fica muito engraçado com eles. 

Senti falta da larga faixa de areia branca das praias do Brasil e entendi porque os gringos dão tanto valor pra elas.

Os hóspedes eram italianos, alemães e a grande maioria ingleses. No verão, a Inglaterra baixa inteira na Grécia. Os monitores dividiam as crianças em grupos que falavam línguas diferentes. Era um barato isso! 

Pedro e Júlia ficavam no grupo alemão. Os únicos brasileiros éramos nós e isso nos rendia alguns momentos de fama. Todo time queria o Pedro na hora do futebol e os outros hóspedes vinham conversar com a gente sobre isso. Eles consideram o Brasil o melhor do mundo. 

A Júlia acha que aprendeu falar italiano, porque toda hora que ela falava "tchau", eles respondiam "Ciao". E ela achava que era a mesma coisa. Quanto a isso, o Gi disse que

"o caminho do mistério aponta para dentro e só o que é racional é o viável..."

mas eu acho mesmo é que quando a gente voltar pro Brasil, essa menina vai estar pirada com tanta mistureba de línguas na cabeça dela coitada.

E na praia, a mulherada toooooda de topless né! E eu junto, aloka. Depois da minha primeira vez na Espanha meu bem, nunca mais pensei duas vezes! Sensação incrível de liberdade

"Bem que Sócrates dizia que o ser humano estaria condenado à sua própria liberdade...", disse o Gi.

Mas no caso do meu topless, isso que ele falou é bom ou ruim? Não ficou muito claro pra mim... 

Ele ficava assim, me fazendo pensar o dia inteiro, filosofando coisas daquele livro, deitado na espreguiçadeira com os pés na posição "dez pras dez". Reginaldo adotou pra valer a teoria “sigá sigá” do povo grego que significa devagar e relaxante. E ele tava mais que certo mesmo, afinal eram nossas férias! 

Depois de tudo isso que falei da viagem, ainda tem uma coisa incrível que deixei pro final. Sabe as 7 maravilhas do mundo? Em Rhodos ficava uma delas. Era o Colosso de Rodes! 

Estátua de bronze gigantesca cujos navios passavam por entre suas pernas para irem até o porto. Apesar de imponente, só ficou de pé por 55 anos, quando um forte terremoto a jogou no fundo do mar. Depois de quase mil anos, os árabes recolheram os pedaços, transformaram em sucata e seu bronze foi vendido. Triste fim para uma maravilha do mundo! Fiquei tão passada, que pra me consolar...

"Calma Ana, tudo pode ser dividido em partes ainda menores, mas mesmo na menor das partes ainda existe um pouco de tudo..."

Ahh, isso até que foi bonito!

O lugar onde a estátua ficava existe até hoje e é o ponto mais visitado da ilha. Fica num forte medieval de mais de 2.400 anos! Só pra gente ter noção, o Brasil tem só 500 e alguns aninhos. É praticamente uma criança perto dessa história toda aqui! 

Hoje a cidade vive em tempos modernos, mas não mudou em nada sua arquitetura medieval. Eu não teria palavras pra descrever tudo se não fosse a ajuda do Gi mais uma vez:

"Tem coisas que são feitas da mesma matéria que compõe os sonhos..."  

YES! Nisso ele tem razão! Assistimos nesse dia um show típico de dança grega, com o genuíno som do Bouzouki (bandolim grego) tocado ao vivo! Coisa de sonho mesmo.

Quem tem chance de ir à Grécia, volta de lá diferente. Algo bem pequeno, mas essencial muda dentro da gente. Não sei se é a filosofia, a mitologia dos deuses ou a grande carga de história, mas algo nos transforma. Algo que realmente nos faz pensar nas coisas...

“Entre o céu e a terra existe mais coisas que pode supor nossa vã filosofia...”

E olha que essa frase FUI EU MESMA QUE LI NO LIVRO!!!

Bem, férias acabadas, caímos na real e arrumamos as malas. Rumo à Alemanha! Quando o avião levantou vôo, o comandante comunicou a situação do tempo no nosso destino: Frio!!! (claro, senão não seria a Alemanha!) Então Júlia se debruçou na janelinha, olhou as lindas ilhas lá em baixo se afastando, deu um suspiro demorado e disse:

“_ Bem que eu queria morar aí nessa Grécia viu... ... ...!”

***** FIM *****

 

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Ana Cassiano

Morei na Alemanha por 8 anos. Já visitei vários países de continentes diferentes. Sou Guia de Turismo em São Paulo, Escritora de Viagens e Colaboradora de Sites de Turismo.